segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Elementos estéticos da terceira geração romântica



A necessidade de fugir da realidade, de ver além da razão, de evadir-se do mundo, graças à imaginação, para uma época passada ou um universo sobrenatural. Daí o senso do mistério, a atitude de sonho e melancolia, de angústia e pessimismo, que carreiam para o Romantismo os temas da morte, desolação, ruínas, túmulos, o “mal do século”. Daí também à volta ao passado, à Idade Média, ao mundo dos magos, fantasmas e feiticeiros.

 Em Portugal, o Romantismo teve Inicio em 1825,  quando Almeida Garrett publicou o poema Camões, biografia do célebre poeta, em versos brancos, que retratava principalmente o sentimentalismo. O Romantismo teve duração de 40 anos e terminou por volta de 1865.
O Romantismo em Portugal surgiu dentro de um clima político conturbado, o que explica o exagero nas composições e a fuga da realidade do “eu” poético, em suas composições. Neste período a liberdade sobrepuja as regras, antes “adorada” pelos clássicos. O período vem apenas para confirmar a diluição do Arcadismo. O poema é considerado um marco para o início do Romantismo por apresentar características que viriam se firmar no espírito romântico.
Essa escola se opunha aos clássicos, opondo-se as regras e modelos pré-estabelecidos, ou seja, em decorrência da liberdade, espontaneidade e individualismo, no romântico há ausência de regras e formas prescritas. Segundo Afrânio Coutinho “A regra suprema é a inspiração individual, que dita à maneira própria de elocução. Daí o predomínio do conteúdo sobre a forma. O estilo é modelado pela individualidade do autor. Por isso, o que caracteriza é a espontaneidade, o entusiasmo, o arrebatamento”.
O Romantismo Português é dividido em três gerações, na primeira geração ainda permanecem alguns valores neoclássicos.
Na segunda geração há pleno domínio da estética e da ideologia romântica. Nesta fase os escritores tomam atitudes extremas, há o predomínio do exagero, e a nova tendência são os temas soturnos e fúnebres, tudo expresso numa linguagem fácil e comunicativa. É o chamado ultra romantismo, em que as características românticas estão consolidadas.
A terceira geração (1860-1870) trouxe um Romantismo mais equilibrado, regenerado e foi considerado momento de transição, pois já anunciava o Realismo. Neste momento há a aproximação entre a arte e os problemas sociais.
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Com o domínio burguês, ocorre a “profissionalização” do escritor, que passa a comercializar sua obra, enquanto o público paga para consumi-la. O escritor romântico se faz entender e passa a escrever de maneira mais simples, menos rebuscada, sem devaneios ou fuga da realidade.
O Lirismo popular passa então a ser elemento estético dessa geração, pois as mesmas eram feitas para o povo em uma linguagem mais simples, e menos arrebatada como podemos observar neste poema “A vida” de João de Deus Nogueira Ramos:
(...)
A vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é folha que cai!
(...)     
(RAMOS,pág.119)
 Nesta fase também acontece certa tendência a moderação, ou seja, em decorrência do lirismo popular também ocorreu à diminuição dos exageros e da dramaticidade. Os tons mais enxutos e verdadeiros levam a diluição das características românticas presentes na segunda fase do Romantismo. Veremos em outra estrofe do poema “A vida” de João de Deus de Nogueira Ramos a caracterização da tendência a moderação:
(...)
A vida é flor na corrente,
a vida é sopro suave,
a vida é estrela cadente,
voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos ares,
onda que o vento nos mares
uma após outra lançou,
a vida – pena caída
da asa de ave ferida –
de vale em vale impelida,
a vida o vento a levou!
(...)      
(RAMOS.Projeto vercial)


Em todo o poema, não há expressões “carregadas”, o autor não usa exageros. Neste poema ao dizer que “A vida é flor na corrente” sugere que a vida se vai, abordando o tema da brevidade da vida (como no segundo momento do romantismo), porém não notamos aqui nenhum tom fúnebre ou soturno, o “eu” poético define o que seria o fim da vida e apenas isso.
O cotidiano, também é bastante presente nessa geração, assim, os temas adquirem uma simplicidade que os aproximam das pessoas comuns. Observe no poema “CONFISSÃO” de Raimundo Antônio Bulhão Pato:
(...)
Fui na infância católico exaltado;
 tudo era para mim edificante; 
ver o altar, ver o trono cintilante, 
ouvir, na igreja, a voz do órgão sagrado!
(...)                    
(PATO, Clube da poesia)
Como visto no fragmento “Fui na infância católico exaltado” arremete a uma criança fazendo o que era comum naquela época,como por exemplo ir à missa. A terceira geração é também caracterizada por poemas que abordam temas do cotidiano, nesta fase o “eu” poético procura aproximar a poesia do leitor tentando “desvendar” o sentimento do mesmo.
Neste exemplo o eu poético se assemelha ao leitor da sua época falando de um tema comum, presente na sociedade portuguesa da época.
Nesta fase também era muito comum o tom exaltado, engajado nos grandes debates sociais e políticos da época. Para caracterizar este elemento estético usaremos o poema “A enjeitadinha” de João de Deus:
(...)
— De que choras tu, anjinho?
"Tenho fome e tenho frio!"
— E só por este caminho
Como a ave que caiu
Ainda implume do ninho!...
A tua mãe já não vive?

(...)
(RAMOS, Jornal de poesia)
Em “A enjeitadinha” a crítica social é muito forte, pois em plena época de transição e progresso João de Deus descreve a criança abandonada pelas ruas da cidade. O poema ainda trata de outros problemas sociais como o da fome, moradia. O poema evoca uma criança solitária, que chora de fome e de frio, no contexto, simboliza a falência universal da humanidade e o “eu” poético põe em evidência os problemas da época ressaltando em sua criação a imagem da criança abandonada que sequer conheceu a mãe.
A tendência ao pré-realismo e a preocupação com o futuro baseando a fé na ciência e no progresso, define bem a maneira como a terceira geração romântica conceitua o universo. Em “CONFISSÃO” de Raimundo Antônio Bulhão Pato:
(...)
Foi se apagando o amor arrebatado,
e a ciência levou-me, num instante,
com o sopro glacial e penetrante,
o edifício de luz do meu passado!
(...)                 
(PATO, Clube da poesia)

Não há nesta geração a visão de um mundo idealizado, o “eu” poético não tem devaneios com o “lugar perfeito”, apenas descreve o que “vê” e pensa sobre o futuro acreditando na ciência e no progresso.
No trecho acima o autor desconfigura-se do romantismo mostrando em sua construção características do realismo, onde a ciência ganha credibilidade. Em “Foi se apagando o amor arrebatado”, vemos que o amor arrebatado não é mais tão freqüente nesse momento romântico.

Nesta geração ainda perdura a visão espiritualizada da mulher e a idealização amorosa do amor irrealizado ou que está para se realizar, porém o “eu” poético nesta fase, não sofre por ela, na poesia não há temas melancólicos e desesperados. O que existe é o culto ao amor e à felicidade, e ainda que o “eu” poético divinize a
mulher que parece estar a sua frente, ele não deixa de ser moderado na sua contemplação. Em “ENCANTO” de João de Deus de Nogueira Ramos podemos ver claramente essas características:
(...)
Nesse traje austero e grave,
Tôda de preto, era um gosto
Ver não sei que luz suave
A banhar-te as mãos e o rosto...
Era a luz, suponho eu,
Que banha os anjos do céu.
(...)
(RAMOS, Jornal de poesia)

O individualismo e o subjetivismo são características de toda a geração Romântica e nesta terceira geração também é muito presente, neste aspecto o “eu” poético é pessoal e íntimo e passa a mostrar o mundo visto através da sua personalidade e pensamento,” A MÃE E O FILHO MORTO” de Raimundo Antônio Bulhão Pato representa bem esse tipo de poesia:
(...)
Para alcançar o perdão
De quantos crimes tiver,
Pensei então: a mulher,
Na fervorosa oração,
Basta que Possa dizer:
"Tive um filhinho, Senhor,
E o filho do meu amor
Nos braços o vi morrer!"
(...)
(PATO, Clube da poesia)



Observe que o autor concede sua própria opinião a respeito do que escreve “Pensei então...”, ele mostra o seu pensar sobre o assunto, seu sentir. No poema o autor transparece sua tristeza ao ver uma mãe que perdera o filho de seu amor e sugere nesta estrofe, que por ter sentido a dor de perder um filho a mulher alcançaria o perdão divino.
No romantismo há ausência de regras e formas prescritas. A regra suprema adotada pelos românticos é a inspiração individual, o estilo é modelado pela individualidade do autor, sem que haja um padrão pré-estabelecido a ser obrigatoriamente seguido pelos românticos. Em “Aroma e Ave” e “Adoração” de João de Deus de Nogueira Ramos, as diferenças de estilo e formatação, que neste momento é escrito como manda a inspiração do romântico.

AROMA E AVE
(...)
E digo, quando passa
uma ave pelo ar:
– Deus me fizesse a graça
de asas para voar!

Aroma da janela
me evaporava eu,
me respirava ela
e me elevava ao céu!
(...)
(RAMOS, Projeto Vercial)
            ADORAÇÃO
(...)

Atrai, e não me atrevo
a contemplá-lo bem;
porque espalha o teu rosto uma luz santa,
uma luz que me prende e que me encanta
naquele santo enlevo
de um filho em sua mãe!

Tremo, apenas pressinto
a tua aparição;
e, se me aproximasse mais, bastava
pôr os olhos nos teus, ajoelhava!
Não é amor que eu sinto,
é uma adoração!
 (...)         
(RAMOS, Projeto Vercial)
Nos dois exemplos e nos demais poemas apresentados, anteriormente, se pode notar que não possuem a mesma forma. No exemplo, o primeiro apresenta quatro versos em cada estrofe e o segundo possui seis versos.
            Este artigo nos esclarece as diferenças existentes entre as três gerações presentes na escola Romântica em Portugal. Entendemos que devido às mudanças econômicas e sócio-culturais do momento se fundou o Romantismo, uma estética que fugia da realidade e sonhava com outros padrões para a vida, idealizando o lugar perfeito para se viver.
            Devido às mudanças, também notamos nos românticos uma descrença na vida, daí também o tom fúnebre presente nessas composições, como se a resolução de todos os problemas estivesse na morte.
            A terceira geração tem em seu cerne, essas características mais suavizadas e o Romântico desta fase parece “aceitar” o que a vida lhe impõe, porém através de seus trabalhos ele critica e mostra o seu desagrado frente à realidade da época. Nesta geração o romântico se mostra mais esperançoso e espera que a realidade mude de alguma maneira.



REFERÊNCIAS
PATO, Raimundo Antônio Bulhão. A Mãe e o Filho Morto. Jornal de poesia. Disponível em: http://www.secrel.com.br/jpoesia/bpa01.html .Capturado em 14 de março de 2009 as 18:53h.
IDEM. Clube da poesia. Disponível em: http://www.clubedapoesia.com.br/portugueses/porbulhaocont.htm .Capturado em 14 de março de 2009 as 18:53h.
RAMOS, João de Deus de Nogueira. Campo de flores. Projeto vercial.  Disponível em: http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/jdeus.htm .Capturado em 14 de março de 2009 as 19:06h.
IDEM . Jornal de poesia. Disponível em: http://www.secrel.com.br/jpoesia/deus02.html. Capturado em 14 de março de 2009 as 19:36h.

MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. 1ª ed. Cultrix, pág.316. SP: 1968.

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